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    No Shaivismo de Kashemira todo o sistema de evolução é definido em trinta e seis tattvas, chamados também de Cosmogonia Trika, os quais são todos descendidos diretamente de Paramashiva.

    Paramashiva está acima da categoria dos tattvas (princípios, forma ou manifestação), ele é classificado como “atattva” (sem princípio) ou acima de toda a manifestação/forma.

       Os tattvas, segundo os Shaiva Ágamas (Literatura Tântrica), constam nas escrituras originais, que é escrita em Devanágari (a escrita da língua do Sânskrito) e estão divididos em três categorias principais, em ordem descendente, que iniciam-se a partir de Shiva:

 

  1. Suddha Tattvas (princípios puros);

  2. Asuddhasuddha Tattvas (princípios puros e impuros);

  3. Asuddha Tattvas (princípios impuros).

 

      No Hinduísmo em geral quando é explanado o princípio de elevação em uma linha de filosofia, se tem sempre como premissa expor seus fundamentos em ordem descendente. Nesta via de pensamento, é sempre entendido que sua existência já é evidente antes do nascimento no corpo grosseiro, por isso é marcada essa ordem e não o oposto, como é entendido no pensamento Ocidental. O que nos condiciona ao contrário é a ideia lógica de que o homem está evoluindo. Isso só é assim porque o ser nasce obscurecido devido ao novo invólucro (corpo). Portanto, neste estado, o ser necessita dar rumo ao seu novo desenvolvimento. Sendo que a mente não remonta às suas lembranças anteriores, ele se manifesta (nasce) sem as mesmas.

      Em vista disso, vamos explanar os princípios de constituição do universo em sua ordem lógica de entendimento, porém não ortodoxa, mas mais adequada à compreensão da mente Ocidental. Neste caso, vamos iniciar a explanação por ordem inversa (ascendente), onde serão feitas as elucidações a partir dos elementos mais densos até os mais sutis.

 

1. Asuddha Tattvas (Princípios Impuros)

 

      Asuddha Tattvas representa a manifestação do homem com todos os seus sentidos aflorados na forma material, manifestados no corpo físico e psíquico.

      Na Filosofia Pratyabhijña (Filosofia de Reconhecimento do Ser), tem sua estrutura de definição dos elementos considerados impuros nos 24 tattvas, que é semelhante em sua estrutura a definição da Filosofia Sankhya (Filosofia de Argumentação Lógica), mas diferente em sua classificação.

Na Filosofia Sankhya, os 24 tattvas são definidos de forma que compõem todo o universo. Já na Filosofia Pratyabhijña (Shaiva), são 36 princípios no total, sendo que 24 são considerados impuros por estarem manifestados no homem que ainda não ultrapassou os seus sentidos, portanto, ficando preso a eles.

 

Os Princípios da Materialidade (Panca Mahabhutas)

 

     Os 5 elementos grosseiros, também chamados de Panca Mahabhutas, são os princípios que geram as diferentes formas de vida e, são classificados como produtos dos cinco 5 tanmatras (próximos cinco tattvas).

       A definição dos elementos grosseiros como explanados aqui, é discutida em diferentes filosofias e linhas da Índia, incluindo a medicina Ayurveda que, segundo o tratado Charaka Samhita, define o ser humano como um conjunto animado que reúne os 5 mahabhutas somados ao “eu imaterial”.

    O Dr. Yeshe Donden, que foi o médico pessoal de Dalai Lama, explica a conjunção dos mahabhutas em um vegetal: “A terra constitui a base de sua estrutura material; a água é o fator de coesão que a mantém unida; o fogo com sua propriedade de transformação lhe permite amadurecer; o ar com sua oxigenação a fazer crescer e, o éter do espaço no que se manifesta e se desenvolve”.

      A definição de fisiologia na medicina ayurvédica também reconhece uma poderosa dinâmica de relações entre os mahabhutas com outros conceitos ayurvédicos: os órgãos dos sentidos, os gunas da natureza e os gunas das substâncias, a formação dos doshas (constituição corporal além dos elementos grosseiros) até na influência dos diferentes sabores.

 

Prithivi

Terra.
Estado da matéria: sólido.

Na tradição Hindu não se conhece o planeta Terra como o elemento terra, como é confundido por alguns, mas é um dos elementos que predomina na matéria terrestre.
Sentido que o produz: olfato (gandha-tanmatra).

 

Apas

Jala ou água.
Estado da matéria: líquido.

É o elemento que combina todas as substâncias líquidas e se modifica mediante circunstâncias, afetando o sentido do gosto.
Sentido que o produz: paladar (rasa-tanmatra).

 

Tejas

Agni ou fogo.
Estado da matéria: fogo.

O poder de transformar o estado de qualquer substância.

Sentido que o produz: visão (rupa-tanmatra).

 

Vayú

Ar ou vento.

Estado da matéria: gasoso.
O estado do “ar” é quando a matéria perde suas qualidades do tato (grosseiro).

Sentido que o produz: tato (sparsha-tanmatra).

 

Akasha

Espaço ou éter.
Estado da matéria: o éter é, simultaneamente, a fonte de toda matéria e o espaço onde este princípio tem existência. É o menos denso de todos os elementos grosseiros (mahabhutas).

Essa é a energia na qual existe a matéria em sua forma etérica. Nesta forma esse elemento é conhecido como Akasha.

Sentido que o produz: ouvido (shabda-tanmatra).

 

    As mudanças químicas do corpo são produzidas em diversas formas e aspectos, como já são conhecidos, influenciando os diversos estados psicológicos. Esses estados se relacionam com os cinco elementos, que são a base de todo o fenômeno existencial.

      É importante frisar que esses elementos só são aceitos nesta ordem pela visão Hindu. A diferença nessa explanação é que consta o elemento Akasha, sendo considerado o mais sutil e o que dá a base aos outros, sendo sua principal essência.

 

Os Princípios Perceptivos (Panca Tanmatras)

 

      Esses princípios são definidos como produtos de ahamkara (ego) e são cinco: o toque, a visão, o som, a cor, o sabor e o odor. Todos esses elementos são conhecidos como os cinco tanmatras.

      Literalmente, tanmatra significa ‘apenas isto’. Estes são, geralmente, os elementos particulares da percepção dos sentidos.

       São definidos, também, como os cinco indiferenciados elementos sutis dos cinco sentidos:

 

  1. Shabda-tanmatra (som);

  2. Sparsha-tanmatra (toque);

  3. Rupa-tanmatra (cor);

  4. Rasa-tanmatra (sabor);

  5. Gandha-tanmatra (odor).

 

Os Princípios da Experiência Sensível (Indriyas)

      Os Indriyas são, em suma, os sentidos em sua manifestação sutil e não os sentidos como foram explanados anteriormente. Em verdade, os Indriyas, como expostos aqui, são os “veículos” da manifestação sutil dos tanmatras, representando a expressão de como o indivíduo se percebe em sua forma existente. Ao todo, são 10 aspectos: 5 sutis (jnanendriyas) e 5 grosseiros (karmendriyas).

As Faculdades de Ação (Karmendriyas)

       Karmendriyas são os 5 poderes ou faculdades de ação. Através dessas qualidades, percebemos os instrumentos (órgãos) materiais que nos fazem “atuar” e sentir o mundo a nossa volta. Assim como tanmatras, são produtos de ahamkara (ego). Seus poderes são:

 

  1. Vagindriya (fala);

  2. Hastendriya (apreensão);

  3. Padendriya (locomoção);

  4. Payvindriya (excreção);

  5. Upasthendriya (ejaculação).

 

 

As Faculdades Sensitivas (Jnanendriyas)

Jnanendriyas são as 5 formas ou poderes de percepção dos sentidos. São chamados, também, de Buddhindriyas ou as cinco faculdades sensitivas, sendo que, é por elas que se “materializam” os órgãos físicos dos sentidos, produtos de ahamkara (ego). Os cinco sentidos são:

  1. Ghranendriya (olfato);

  2. Rasanendriya (sabor);

  3. Caksurindriya (visão);

  4. Sparśanendriya (tato);

  5. Śravaņendriya (audição).


 

A Formação da Consciência (Antahkarana)

       Esse é o sentido da formação do aparato psíquico no qual se explica como se forma a consciência e suas características: buddhi (intelecto), ahamkara (ego) e manas (mente).

      Prakriti (manifestação subjetiva) se desdobra, convertendo-se em antahkarana, indriyas (sentidos grosseiros e sutis) e mahabhutas (princípios da matéria). Antahkarana significa “o instrumento interno, aparato psíquico do indivíduo”.

      1. Buddhi é a inteligência verificadora (vyavasayatmika). Os objetos que se refletem em buddhi são de duas classes:

Externos: um objeto que se percebe através dos olhos, com imagens e objetos em geral.

Internos: as imagens construídas através dos samskaras são as impressões passadas de tudo o que vivenciamos e aprendemos em nossa convivência social. Isso é o que se define no Ocidente como “a formação do indivíduo”, os aspectos de influência interna que compõe a formação e influência no que chamamos de caráter.

 

      2. Ahamkara é o produto de Buddhi. É o princípio formador do Eu, da consciência de si mesmo, da individualização e de seu poder de apropriação. Ahamkara é definido como a presunção de uma entidade separada que denota suas experiências (ex: “eu sou bonito e forte” ou “eu posso tal e tal coisa”).

 

     3. Manas é o produto de Ahamkara e coopera com os sentidos na construção das percepções, criando por si mesmo, imagens e conceitos. A faculdade chamada de manas ou mental, é que faz do homem um ser inteligente e moral, distinguindo-o dos seres manifestados em outra formas ou corpos.

 

Indivíduo Limitado (Purusha & Pakriti)

 

Purusha

      Shiva manifesta o seu estado limitado através de maya-shakti, colocado nos (5) cinco kancukas (mantos), no qual limita seu conhecimento universal e poder no individual e subjetivo Purusha. No Sistema Trika, também é conhecido como anu, que significa “limitação da perfeição divina”.

 

Prakriti

     Enquanto Purusha é a manifestação subjetiva de Shiva, Prakriti é a manifestação objetiva. De acordo com a Trika, Prakriti é o efeito objetivo de Kalã (aspecto pelo qual a criação da Consciência se torna limitada).

 

“Prakriti é a imprescindível objetividade, em contraste com Purusa, o qual é subjetivo. Prakriti existe no estado de equilíbrio em seus gunas.”

Tantraloka – Ahnika 9

 

2. Asuddha-Suddha Tattvas (Princípios Puros – Impuros)

 

Experiência Individual Limitada (Maya e os cinco Kancukas)

 

    Nesse estágio, Maya Tattva inicia seu jogo projetando seu aspecto chamado Asuddhadhvan (ordem na qual a verdadeira natureza do Divino é cancelada).

       Maya é derivada da raiz “ma” que quer dizer ‘gerar’. A mesma faz a experiência limitada separar o “Eu” do “isto” e vice-versa. Por esquecer sua real natureza, Maya gera estados de diferenças em tudo.

     Anteriormente, a experiência era Universal: “isto” significa “tudo isto”, todo o Universo. Sob a intervenção de Maya, “isto” significa simplesmente “isto”, diferente dos demais. A partir desse ponto, inicia-se o que é chamado de contração (sankoca). Maya põe um véu sobre o ser, fazendo-o se esquecer de sua real natureza e gerando diferença. Os produtos de Maya são os cinco kancukas, cujas funções se dão a seguir:

  1. Kalã: aspecto pelo qual a criação da Consciência se torna limitada, reduzindo a capacidade Universal de realização;

  2. Vidya: aspecto pelo qual a onisciência se torna limitada, reduzindo a capacidade de conhecimento;

  3. Raga: aspecto que reduz toda a satisfação Universal, dando origem ao desejo por experiências parciais;

  4. Kãla: princípio pelo qual a eternidade da Consciência é reduzida à existência temporal, ocasionando a limitação em relação ao tempo e suas divisões: passado, presente e futuro;

  5. Niyati: este aspecto reduz a liberdade e a capacidade de penetrar no Todo da Consciência Universal, ocasionando a limitação de causa, espaço e forma.

 

3. Suddha Tattvas (Princípios Puros)

 

Experiência Universal

 

Shiva Tattva (O Auspicioso)

 

      Consciência da Realidade definitiva (Cit). O aspecto criativo de Paramashiva é chamado de Shiva Tattva, ou, movimento criativo inicial (prathama spanda). Nesse aspecto, Shiva tem o poder de revelar a si mesmo. No Sattrimsat-tattva-sandoha está escrito: “Quando o Absoluto (Anuttara), por sua absoluta vontade (Svatantrya), sente como o Universo estivesse contido Nele próprio. A primeira vibração dessa vontade é conhecida como Shiva”. Dessa forma, o Ser Supremo se conhece como Shiva.

 

Shakti Tattva (Poder ou Energia)

 

       Aspecto feminino ou poder da Realidade que gera a Consciência do “Eu” (aham) e “isto” (idam), ou, sujeito e objeto, sem separá-los num sentido dualístico. Uma das características a se revelar nesse estado é Ananda: bem-aventurança, ou, manifestação da natureza de Shakti.

     Shakti Tattva é a manifestação da energia de Shiva, nesse aspecto o Ser supremo se conhece como Shakti. Cit (Shiva) e Ananda (Shakti) são a própria natureza de Paramashiva. As outras características podem ser consideradas como suas Shaktis.

 

Sadakhya Tattva

 

    Sadakhya, ou, Sadashiva, manifesta a experiência do “Eu” tornando-se mais acentuada que a experiência do “isto”. Nesse aspecto, a característica predominante é Iccha (Vontade). A experiência nesse estágio é “Eu Sou”. Já que “sou” ou “existência” é afirmada nesse estágio de evolução do Ser, a experiência nesse estágio é, portanto, “Eu sou isto”. Entretanto, “isto” é reconhecido pelo Yogi como uma experiência obscura (asbhuta). O objetivo predominante ainda é a experiência do “Eu” (Supremo). O Universo ideal é experienciado pelo Yogi como algo indistinto no estado profundo de Consciência. Portanto, esta experiência é reconhecida pelo Yogi como nimesha (disposição interna da Spanda que, ao se manifestar, o objeto observado converte-se no próprio observador, fundindo-se neste).

 

Ishvara Tattva

 

     É neste estágio da experiência Divina onde o Yogi reconhece a experiência manifestada como “Isto” (Idam) de forma mais definida (sphuta). Isso é o que conhecemos como o aspecto de Ishvara Tattva e é chamado de unmesa (desenvolvimento da Consciência espiritual, a qual revela-se ao voltar a Consciência para si). Nesta etapa, o aspecto predominante é Jnana (Conhecimento). Rajanaka Ananda diz em seu Vivarana: “como nesse estágio, o lado da experiência objetiva é o ‘isto’ (Universo), está claramente definido, portanto, que Jnana-Shakti é predominante.”

     Assim como um artista tem à primeira vista uma ideia obscura da pintura que quer produzir, e posteriormente, uma clara imagem começar a emergir em sua visão, no estágio de Sadashiva Tattva, o Universo é apenas uma obscura ideia. Entretanto, no estágio de Ishvara Tattva, torna-se claro ao Yogi. A experiência de Sadashiva é “Eu Sou Isto”, enquanto que a experiência de Ishvara é “Isto Sou Eu.

 

Sadvidya ou Shuddhavidya Tattva

 

      No Sadvidya Tattva, o “Eu” e o “Isto” da experiência estão em igualdade, como dois pratos de uma balança. Neste estágio, Kriya Shakti (Ação) é predominante. O “Eu” e o “Isto” são reconhecidos nesse estado com a mesma clareza. Embora o “Eu” e “Isto” estejam identificados, eles podem ser distinguidos em pensamento claramente. A experiência desse estágio chama-se diversidade na unidade (bhedabhedavimarshanatmaka). Ambos “Eu” e “Isto” são reconhecidos com tão nítida clareza que estão identificados entre si. Enquanto o “Isto” é distinguido claramente do “Eu”, este ainda sente ser parte deste “Eu” (Ser). O que é “Eu” e “Isto”; O que é “Isto” ou “Eu” (samana dikharana).

    A experiência desta etapa se conhece como parapara dasa e é intermediária entre o para (superior/mais elevado) e o apara (inferior). Até este momento, a experiência é em forma de ideia. Até que se chame suddhadhva (na ordem do perfeito), uma manifestação na qual não está todavia velada à svarupa (Natureza Real da Divindade).

 

4. Paramashiva (Realidade Suprema)

 

    Esse aspecto refere-se à realização Suprema, o princípio de tudo. Refere-se também à Cit (energia consciente do Absoluto) ou Parasamvit (Consciência Suprema).

Segundo o Pratyabhijna Shastra, Parasamvit é um termo intraduzível em qualquer linguagem. Geralmente é transliterado como “Consciência”. Para um entendimento claro, essa Cit não é exatamente “Consciência”, pois a mesma conota uma relação subjetiva e objetiva, conhecedor e conhecido, e se refere à dualidade. Entretanto, Cit não é relacional, sendo “somente” o princípio imutável de toda a experiência de mudanças.

Os 36 Princípios de Manifestação